sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Meu Pé de Laranja Lima





Não podia deixar de pensar nele. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor
não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos
na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que
morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo. Dor que dava desânimo
nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.

Meu coração se revoltara sem raiva. “Que quer esse homem que me pega no colo?” 
Ele não é meu pai. Meu pai morreu. O Mangaratiba matou ele.
Papai tinha me seguido e viu que os meus olhos se encontravam de novo molhados.
Quase se ajoelhou para falar comigo.
— Não chore, meu filho. Nós vamos ter uma casa muito grande. Um rio de
verdade passa bem atrás. Grandes árvores e tantas, que serão só suas. Você pode
fazer, armar balanços.
Ele não entendia. Ele não entendia. Nenhuma árvore deveria ser tão linda na
vida, como a Rainha Carlota.
— O primeiro a escolher as árvores, será você.
Olhei os seus pés, os dedos saindo dos tamancos. Ele era uma velha árvore
de raízes escuras. Era um pai-árvore. Mas uma árvore que eu quase não conhecia.
— Depois tem mais. Tão cedo não vão cortar o seu pé de Laranja Lima.
Quando o cortarem você estará longe e nem sentirá.
Agarrei-me soluçando aos seus joelhos.
— Não adianta, Papai. Não adianta...
E olhando o seu rosto que também se encontrava cheio de lágrimas murmurei
como um morto:
— Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de
Laranja Lima.

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