sábado, 31 de agosto de 2013

incorrespondências


"Estou sempre com saudades". Disseste-me um dia para aliviar meu coração. "Não quero que sofras". Disse-me mesmo sabendo que minha procura já era em si de sofrimento. "Não quero que vá nunca embora". Eu disse. E fomos! Saímos de nossas vidas. Acordei-me com saudades, não foi hoje, tem sido (...) têm dias que não entendo o porquê da tua memória persistir, mas daí entendo que o que gravei como verdade, é a minha verdade, e ela não sairá de mim, logo, eu direi que fui embora para que eu não fique, somente, sozinha, enquanto tu já foste há tanto tempo. Acredita que até hoje me pego em surpresa por entender quão corajosa e a frente do seu tempo tu foste. Relembro tua trajetória, tua coragem. E, quando minha visão estende, lembro-te. Serás sempre minha modelo para a modernidade. – Ela já pensava assim. – Ela já agia assim. Provavelmente, foste apontada e crucificada. Teus amigos mesmo são os que te amam. E ainda que não a entendam, te admiram. Conhecem tua sensibilidade. Eu tenho-te dentro de mim, conheço um pouco da tua dor. Foste o que me mostraste, eu foste também com que culpaste, e torturaste, silenciosamente. Eu não te culpo.


Do que não pôde ser vivido Do que jamais será entendido.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A CONFISSÃO FINAL


( quem já sentiu ter um amigo Portuga...)


            OS ANOS SE PASSARAM, meu caro Manuel Valadares. Hoje tenho quarenta e oito anos e às vezes na minha saudade eu tenho impressão que continuo criança. Que você a qualquer momento vai me aparecer me trazendo figurinhas de artista de cinema ou mais bolas de gude. Foi você, quem me ensinou a ternura da vida, meu Portuga querido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas e as figurinhas, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum.
             Naquele tempo. No tempo de nosso tempo, eu não sabia que muitos anos antes, um Príncipe Idiota ajoelhado diante de um altar perguntava aos ícones, com os olhos cheios d'água: “POR QUE CONTAM COISAS AS CRIANCINHAS’
A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.
Adeus!
Ubatuba, 1967

Meu Pé de Laranja Lima





Não podia deixar de pensar nele. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor
não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos
na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que
morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo. Dor que dava desânimo
nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.

Meu coração se revoltara sem raiva. “Que quer esse homem que me pega no colo?” 
Ele não é meu pai. Meu pai morreu. O Mangaratiba matou ele.
Papai tinha me seguido e viu que os meus olhos se encontravam de novo molhados.
Quase se ajoelhou para falar comigo.
— Não chore, meu filho. Nós vamos ter uma casa muito grande. Um rio de
verdade passa bem atrás. Grandes árvores e tantas, que serão só suas. Você pode
fazer, armar balanços.
Ele não entendia. Ele não entendia. Nenhuma árvore deveria ser tão linda na
vida, como a Rainha Carlota.
— O primeiro a escolher as árvores, será você.
Olhei os seus pés, os dedos saindo dos tamancos. Ele era uma velha árvore
de raízes escuras. Era um pai-árvore. Mas uma árvore que eu quase não conhecia.
— Depois tem mais. Tão cedo não vão cortar o seu pé de Laranja Lima.
Quando o cortarem você estará longe e nem sentirá.
Agarrei-me soluçando aos seus joelhos.
— Não adianta, Papai. Não adianta...
E olhando o seu rosto que também se encontrava cheio de lágrimas murmurei
como um morto:
— Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de
Laranja Lima.