domingo, 26 de agosto de 2012

luxo radioso de sensações





"(...) tinha suspirado, tinha beijado o papel devotadamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

O Primo Basílio, de Eça de Queirós.



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Desenho, Cecília Meireles


Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia.
Cantava canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! – aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.




21 de agosto: um poema, uma carta linda, e o abraço da minha Mel. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

vinte e cinco


agosto de 2012

Eu, que dou a mim mesma símbolos, que ilustro histórias com poemas, contos, que canto músicas para me lembrar de um caminho, um alguém. Eu, que enfeito pessoas com frases, palavras, cores... tenho minha vida com cheiro, gosto, som. Eu, que adoro metáforas – sou simbólica. Eu, que dou nome de personagens a amigos, amores, conhecidos, não quero esquecê-los. Eu que os tenho em mosaicos, desenho-os. Eu que amo a parte, que acredito na representação, sei quem é o todo. Eu, que preciso de símbolos para viver, acredito. Eu que tenho fé.



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Gabriela

(breaking the girl, Yoskay Yamamoto)

Gabriela? Quem é ela?
A Gabi não é novela, não é música, mas poderia ser... na verdade, ela é. Ela é atração. Quando ela está, eu tenho vontade de me calar e só vê-la. Porque é lindo ver tanta expressão. É lindo!
Ela é música na minha vida. Eu consigo ouvi-la contar qualquer história, com o jeito que só ela tem. São os traços físicos que cada um deixa na vida da gente, lembra, Gabi? Falamos disso hoje. Eu sei o jeito que você sorri e o sorriso que você apresenta cada vez que tem uma boa história para contar. Para mim, você é uma contadora de histórias. E como amo te ouvir. Já disse isso, né? Amo as impressões que você tem da vida, e a lição bonita e amorosa que você tira de cada experiência. Nada é tão terrível!!! Ainda que seja, a lição é o mais importante. Você é tão humana, e tão bonita. Você é razão, mas o que te move é o sentir. Você sente, e sente muito. É o que me encanta, e nos aproxima. Sou admiradora, amiga, e você minha confidente. Quanto amor. Quanta certeza. Quanta lucidez! O que eu gostaria de dizer agora, é que eu nunca fui tão sincera em tão poucas palavras, como fui com você. Você é confiança, porto seguro, ousadia. e um universo de amor. Sabe por quê? Porque você é aprendizado com a certeza do erro! A maior surpresa é ver tanta sabedoria aprendendo, ainda. É ver você contar tudo, com ar de aprendiz. Com ar de igualdade. Somos tão iguais, de corações! Amor de admiração, carinho, igualdade!
Quero que você saiba disso. Eu te amo, e o melhor... te admiro muito, e cada dia mais.
Amo você, Gabibs!!!!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

tem a satisfação de estar lúcida



Mania boba de ir até o fim. É que eu não consigo conviver com a dúvida, e não aceito o meio do caminho. Não me mostre a superfície que vou querer entrar. Eu sou assim. Eu insisto, e por insistir, eu convenço. Aquela conversa que o teu orgulho não suportaria permitir, só te fará mais adulto. E daí? Eu não julgo, mas não me tenha como base. Eu prefiro me revirar, cavar o buraco que, às vezes, eu mesma caio, e sujar a cara com aquela possível infantilidade. Sou excessos que fogem de mim, e não tenho vergonha da minha sujeira. Se eu acreditar, eu vou até o fim. Seja lá o que será o fim. Eu sou dos extremos e não é fácil respirar fundo para me equilibrar. Eu necessito do equilíbrio, também. Mas ele não me sustenta. Para isso, eu preciso me ouvir. Ser leal comigo mesma é o que sempre esperei da minha esperança. Ela me leva até o fim... estropiada, machucada, mas viva, mais viva do que nunca. Eu preciso do enfrentamento. Aqueles minutos finais da ligação, em que permaneci sentada, olhando fixo o telefone, ainda reverberam em mim. Eu sempre vou até o fim, mas não torço por ele. O meu desejo depende do diálogo. E a interlocução me coloca a mercê de outros desejos. O vínculo fica por conta da magia do passado que bateu na porta do meu futuro. Ainda bem. Devo agradecer? Já o fiz, de coração. O vínculo é a minha liberdade. As vozes únicas. Frieza dos desconhecidos, você disse! Quem imaginou a sua frieza? Têm coisas que acredito e dou nomes. São minhas, mas passaram por muitos. Voaram muito alto para chegarem em mim. Gratidão – porque você não sabe o que ganhei  naquele dia. Foi de céu, de sol, de mar. Eu rio. Rio. Acenderam a minha liberdade, e ela queria tanto voar. Emoção – porque a vida tem chegadas, mas precisa de despedidas. Despeço! Mas a esperança? A esperança é minha. 



domingo, 5 de agosto de 2012

Ventos de Agosto


Eu sou essa pessoa a quem o vento chama, a que não se recusa a esse final convite, em máquinas de adeus, sem tentação de volta. Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza. Eu sou essa pessoa a quem o vento leva: já de horizontes libertada, mas sozinha. Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho? Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga. Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas vão as medidas que separam os abraços. Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina: “Agora és livre, se ainda recordas”.  

Cecília Meireles, Solombra


sábado, 4 de agosto de 2012

Por não estarem distraídos



Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


Clarice Lispector

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Como me despedir?


Hoje, na minha correria diária, das idas e vindas para todos os cantos, a imagem nítida do que se disse, de repente, desfilou na minha cabeça, com um som próprio que eu mesma dei a ela. Não era sua voz, era a minha. Não conheço mais a sua voz, esqueci o seu nome. De todas as tristezas, a pior foi ter amado tuas migalhas, e ter me entorpecido delas. Independente dos teus julgamentos, joguei meus restos na última viagem pr'aquela cidade. E nessa vida, não me cabe mais isso. A cada lembrança que insiste em rodear – um adeus meu. Estou cansada da contrariedade entre minha mente e coração. Aquela minha fé foi inocente, o fim seria vê-la no chão. Mas eu ainda me revolto, talvez comigo mesma, pois nunca suportei o descaso. Me cansa a importância que dei a pequenos acontecimentos... a pessoas quaisquer. E por mais que eu tenha condições de mudar e me deslocar para lugares que eu quiser, lamento sempre a atenção que pedi para quem não tinha o menor apreço. Lamento o desleixo desses que passaram e a forma como foram embora!