sábado, 16 de junho de 2012

Bandolins


           Poucas pessoas me atingiram, e acho que ninguém assim como você. O que tem feito tudo mudar são as lembranças que eu guardei. Eu poderia ter guardado mais (lembranças), e agora, talvez a memória pudesse me acalmar. Eu queria ter prestado mais atenção nas minhas memórias. Eu queria poder contar tudo, sem perder uma palavra sua, queria lembrar do seu tom de voz, e da sua atenção, queria estar mais, ter falado mais, prometi que falaria nas próximas vezes que nos encontrassemos, no entanto, não falei muito, e mesmo assim, eu lembro que você disse que pouco podia dizer. Que tipo de inquietação me fazia parar você? Eu fazia você parar de falar?
           Não quero ler esse texto um dia, e ler apenas até aqui, eu quero terminar de escrever essa história, mas eu to procurando outras memórias, e estou me perdendo dentro delas. Às vezes, a gente lembra mais do espaço, das coisas ao lado, do que tinha nas mãos enquanto contava aquelas histórias de um dia ser assim como você. Uma palavra que eu lembro de ter escrito, ela me faz lembrar do cheiro que tinha. Sim, tinha um cheiro da fruta que eu comia enquanto escrevia. Engraçado, para lembrar das conversas, eu me lembro da cor da letra, dos textos com vários parágrafos e sem conclusão, lembro das respostas – eu costumava esperar muito por elas. E na maioria das vezes, elas eram seguidas de outros textos, das buscas por você, e de umas poucas palavras, ou de muitas. O que me prende a essas memórias, é lembrar que era bom, era bom sentir assim, de ver você dançando ao som dos bandolins me traz boas lembranças.
         A verdade, bailarina, é que a sua dança continua no salão, e aquela canção durou muitas horas, e foram suficientes para você ter ficado. Só que você não ficou. E as minhas memórias não são mais de você, mas dos quadros de pintores famosos que ficavam atrás de você, da ponta da cocha branca da cama, das pessoas que rodeavam a sala onde eu estava, e do mundo que eu tinha ali, e que era tão somente meu, enquanto estávamos só nós, em uma sala. Essa sala não era sala, e a lembrança do seu rosto é mais clara agora, é clara e eu não posso ver. Saímos das nossas vidas, e certas palavras dormem escondidas enquanto eu procuro o que dizer. As lembranças estão indo. Eu procurei muito por você, mas não existe tempo para o que não foi vivido, e não existe perdão, também. A gente esquece, e deixa ir, mesmo sabendo que está esquecendo.




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